E se mudar de corretora ficar tão fácil quanto trocar de operadora?
A integração da portabilidade de investimentos ao Open Finance pode reduzir o atrito para movimentar carteiras e alterar a competição entre corretoras, escritórios de investimentos e plataformas.

Trocar de corretora ainda exige uma dose razoável de paciência. Mesmo quando o investidor encontra uma instituição mais adequada ao seu perfil ou decide acompanhar seu assessor em outra plataforma, a transferência de ativos envolve procedimentos diferentes, prazos distintos e limitações que variam conforme o produto.
Esse cenário começou a mudar com a entrada em vigor das novas regras de portabilidade da Comissão de Valores Mobiliários. A Resolução CVM 210 trouxe critérios mais claros para o processo, definiu responsabilidades e estabeleceu prazos máximos para determinadas transferências. Valores mobiliários submetidos a depósito centralizado, por exemplo, devem ser portados em até dois dias úteis. (gov.br)
O próximo capítulo dessa agenda pode ter impacto ainda maior. A CVM incluiu formalmente na Agenda Regulatória de 2026 o estudo da portabilidade de investimentos no Open Finance. A autarquia já vinha discutindo com o Banco Central o uso de APIs padronizadas para facilitar a troca de informações entre instituições e automatizar etapas do processo. (gov.br)
O Open Finance brasileiro já permite o compartilhamento autorizado de informações sobre investimentos. A integração dessa infraestrutura com a portabilidade cria uma possibilidade relevante: tornar mais simples tanto a visualização do patrimônio mantido em diferentes instituições quanto a sua movimentação. (bcb.gov.br)
A experiência internacional oferece algumas referências. Nos Estados Unidos, o ACATS automatiza boa parte das transferências entre corretoras. Na União Europeia, a discussão sobre o Financial Data Access, conhecido como FIDA, procura ampliar o compartilhamento padronizado de dados financeiros entre instituições. São iniciativas diferentes, mas ambas reduzem barreiras que historicamente dificultaram a mobilidade do cliente. (finra.org)
Para o mercado brasileiro, a consequência pode ser relevante. Quanto menor o atrito para movimentar uma carteira, maior a pressão sobre corretoras e escritórios para sustentar a relação por meio de atendimento, qualidade da assessoria, produtos, preço e experiência.
Esse efeito também alcança a relação entre plataformas e assessores. Se um cliente conseguir acompanhar um profissional em uma mudança de instituição com menos obstáculos operacionais, políticas de retenção, partnership e qualidade do vínculo com a base ganham ainda mais importância.
A urgência está justamente aí. A portabilidade digital já existe, as novas regras da CVM estão vigentes e a conexão com o Open Finance está na agenda regulatória. O mercado ainda tem tempo para se preparar, mas já existem sinais suficientes para considerar a mobilidade do patrimônio como uma variável estratégica.
A analogia com a telefonia ajuda a visualizar o movimento. A portabilidade numérica reduziu o custo de trocar de operadora. No mercado de investimentos, uma redução semelhante na fricção pode tornar o patrimônio muito mais sensível à qualidade do serviço prestado.
Fonte: Veritas — leia o artigo original.
Fonte: Veritas
Colunista de M&A e Wealth Management
Cobre M&A, consolidação e wealth management no mercado de investimentos.